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Breve História do Interzonal de Petrópolis 1973

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Na história do xadrez no Rio de Janeiro se registra duas importantes competições internacionais: o Interzonal de Petrópolis em 1973 e o Interzonal do Rio de Janeiro em 1979. Contarei um pouco desses eventos nos quais estive presente.

Petropolis 1973.jpgO GM Henrique Mecking no Interzonal de Petrópolis (RJ), Brasil, 1973

Estive presente dos dois Torneios Interzonais de Xadrez realizados no Rio de Janeiro, que serviriam para escolher, através de matches, o candidato a desafiar o Campeão Mundial. O primeiro foi o Interzonal de Petrópolis de 1973, tinha o objetivo de selecionar três jogadores para participar do Torneio de Candidatos de 1974. Vou contar um pouco dessa história.

A cidade serrana de Petrópolis é muito querida por turistas devido ao fato de ter sido Residência de verão do Governo Imperial. O Museu do Império guarda relíquias daquela época e conta muito da História do Brasil. Petrópolis dista cerca de 1,5h do Rio, o que, para assistir o Interzonal, significava um sobe e desce constante. Minha companhia era o Dr. Almeida Soares, advogado fanático por xadrez, membro de várias entidades e ex-Presidente da Federação Carioca de Xadrez. Eu recolhia notícias para algumas publicações (nacionais e estrangeiras) nas quais colaborava e ele recolhia material para o Livro do Torneio, que foi publicado no ano seguinte. Na mesma época acontecia em Leningrado, URSS, outra competição com o mesmo objetivo.

Companheiro constante também foi o Problemista e Bi-Campeão Mundial da Categoria "Mate Ajudado" o Juiz da FIDE Félix Sonnenfeld (amigo e Diretor do Clube de Xadrez Guanabara), que nos intervalos das rodadas divertia os GM com vários problemas de autoria dele, muitos premiados em competições internacionais. Félix Sonnenfeld se comunicava com a maioria dos participantes em alemão. Um dos mais animados era o Paul Keres, mas Pal Benko, Predrag Ostojić, Oscar Panno e curiosos também eram vistos “peruando” ao redor da mesa.

O salão principal do Clube Petropolitano ficava lotado nos dias de jogos. Um mezanino circundava o salão e facilitava o trabalho dos jornalistas, técnicos e analistas. Verdadeiras equipes de analistas e técnicos acompanhavam os concorrentes e faziam a preparação do jogador, conforme fosse o adversário. Nas horas de folga um dos poucos que “fugiam” do tabuleiro era Vasily Smyslov, que encontrou um piano no restaurante do clube e ficava tocando clássicos, até se aventurou a cantar com voz afinada de barítono algumas músicas de compositores russos. Certa vez arriscou uns acordes de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, para deleite dos que o cercavam ao piano. Ao ouvir a música conhecida de todos, logo os assistentes se multiplicaram e em breve a turma toda cantava a "Aquarela do Brasil", enchendo o ambiente de alegria.

Concorrida até demais era a mesa do café brasileiro, enriquecida com os famosos biscoitos amanteigados da Cidade Imperial. Muitos dos ‘segundos’ estrangeiros se servia do cafezinho, acompanhado do incomparável e delicioso biscoito, antes de circular pelo salão peruando o as mesas de análise ou assistindo a reprodução de partidas em andamento. Logo depois de um giro pelo salão era flagrado de novo diante da mesa para repetir o cafezinho e demais acepipes. O café brasileiro tinha fama internacional, mas o que eles não sabiam era que a região de Petrópolis teve muitas Fazendas de Café, ao qual o clima frio, úmido de garoa, concedia um sabor inigualável. Até hoje, Século 21, se encontra reminiscentes desses cafezais em terras das antigas fazendas.

Para muitos xadrezistas brasileiros era a chance única de ver, ao vivo e a cores, as lendas, os GM, algumas promessas e futuros gênios do xadrez mundial. Entre os veteranos estavam o mito Sammy Reshevsky, Paul Keres e Vasily Smyslov; os caras do momento eram Efim Geller, Lev Poluga, Lajos Portisch, David Bronstein, Borislav Ivkov, Oscar Panno, Vladimir Savon e Shimon Kagan; e a juventude vinha, claro, encabeçada pelo nosso campeão Henrique Mecking, seguido de Lubomir Ljubojevic, Florin Gheorghiu, Vlastimil Hort, Peter Biyiasas, Tan Ann e o suíço Werner Hug.

O resultado do Torneio Interzonal de 1973 em Petrópolis todo mundo sabe, deu Mecking, l2 pts. Depois Geller, Poluga e Portisch, 11,5 pts. O barítono Vasily Smyslov veio logo a seguir com 11 pts. No mês de setembro do mesmo ano, a cidade eslovena de Portoroz recebeu Portisch, Poluga e Geller (empatados em segundo lugar), para disputar um torneio de duas ida-e-volta, para completar as outras vagas. Deu Portisch 5,5 pts. e Poluga com 3,5 pts. Efim Geller sobrou com 3 pts. O curioso é que, se Geller tivesse feito mais meio ponto haveria outro match com Poluga... Na próxima vez contarei alguma coisa sobre o Interzonal do Rio de Janeiro, realizado no Copacabana Palace Hotel em 1979. Xau!