Breve História do Interzonal de Petrópolis 1973
O GM Henrique Mecking no Interzonal de Petrópolis (RJ), Brasil, 1973
Estive presente dos dois Torneios Interzonais de Xadrez realizados no Rio de Janeiro, que serviriam para escolher, através de matches, o candidato a desafiar o Campeão Mundial. O primeiro foi o Interzonal de Petrópolis de 1973, tinha o objetivo de selecionar três jogadores para participar do Torneio de Candidatos de 1974. Vou contar um pouco dessa história.
A cidade serrana de Petrópolis é muito querida por turistas devido ao fato de ter sido Residência de verão do Governo Imperial. O Museu do Império guarda relíquias daquela época e conta muito da História do Brasil. Petrópolis dista cerca de 1,5h do Rio, o que, para assistir o Interzonal, significava um sobe e desce constante. Minha companhia era o Dr. Almeida Soares, advogado fanático por xadrez, membro de várias entidades e ex-Presidente da Federação Carioca de Xadrez. Eu recolhia notícias para algumas publicações (nacionais e estrangeiras) nas quais colaborava e ele recolhia material para o Livro do Torneio, que foi publicado no ano seguinte. Na mesma época acontecia em Leningrado, URSS, outra competição com o mesmo objetivo.
Companheiro constante também foi o Problemista e Bi-Campeão Mundial da Categoria "Mate Ajudado" o Juiz da FIDE Félix Sonnenfeld (amigo e Diretor do Clube de Xadrez Guanabara), que nos intervalos das rodadas divertia os GM com vários problemas de autoria dele, muitos premiados em competições internacionais. Félix Sonnenfeld se comunicava com a maioria dos participantes em alemão. Um dos mais animados era o Paul Keres, mas Pal Benko, Predrag Ostojić, Oscar Panno e curiosos também eram vistos “peruando” ao redor da mesa.
O salão principal do Clube Petropolitano ficava lotado nos dias de jogos. Um mezanino circundava o salão e facilitava o trabalho dos jornalistas, técnicos e analistas. Verdadeiras equipes de analistas e técnicos acompanhavam os concorrentes e faziam a preparação do jogador, conforme fosse o adversário. Nas horas de folga um dos poucos que “fugiam” do tabuleiro era Vasily Smyslov, que encontrou um piano no restaurante do clube e ficava tocando clássicos, até se aventurou a cantar com voz afinada de barítono algumas músicas de compositores russos. Certa vez arriscou uns acordes de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, para deleite dos que o cercavam ao piano. Ao ouvir a música conhecida de todos, logo os assistentes se multiplicaram e em breve a turma toda cantava a "Aquarela do Brasil", enchendo o ambiente de alegria.
Concorrida até demais era a mesa do café brasileiro, enriquecida com os famosos biscoitos amanteigados da Cidade Imperial. Muitos dos ‘segundos’ estrangeiros se servia do cafezinho, acompanhado do incomparável e delicioso biscoito, antes de circular pelo salão peruando o as mesas de análise ou assistindo a reprodução de partidas em andamento. Logo depois de um giro pelo salão era flagrado de novo diante da mesa para repetir o cafezinho e demais acepipes. O café brasileiro tinha fama internacional, mas o que eles não sabiam era que a região de Petrópolis teve muitas Fazendas de Café, ao qual o clima frio, úmido de garoa, concedia um sabor inigualável. Até hoje, Século 21, se encontra reminiscentes desses cafezais em terras das antigas fazendas.
Para muitos xadrezistas brasileiros era a chance única de ver, ao vivo e a cores, as lendas, os GM, algumas promessas e futuros gênios do xadrez mundial. Entre os veteranos estavam o mito Sammy Reshevsky, Paul Keres e Vasily Smyslov; os caras do momento eram Efim Geller, Lev Poluga, Lajos Portisch, David Bronstein, Borislav Ivkov, Oscar Panno, Vladimir Savon e Shimon Kagan; e a juventude vinha, claro, encabeçada pelo nosso campeão Henrique Mecking, seguido de Lubomir Ljubojevic, Florin Gheorghiu, Vlastimil Hort, Peter Biyiasas, Tan Ann e o suíço Werner Hug.
O resultado do Torneio Interzonal de 1973 em Petrópolis todo mundo sabe, deu Mecking, l2 pts. Depois Geller, Poluga e Portisch, 11,5 pts. O barítono Vasily Smyslov veio logo a seguir com 11 pts. No mês de setembro do mesmo ano, a cidade eslovena de Portoroz recebeu Portisch, Poluga e Geller (empatados em segundo lugar), para disputar um torneio de duas ida-e-volta, para completar as outras vagas. Deu Portisch 5,5 pts. e Poluga com 3,5 pts. Efim Geller sobrou com 3 pts. O curioso é que, se Geller tivesse feito mais meio ponto haveria outro match com Poluga... Na próxima vez contarei alguma coisa sobre o Interzonal do Rio de Janeiro, realizado no Copacabana Palace Hotel em 1979. Xau!
