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Não sabe o que fazer? Melhore a pior peça!

ChessAnalysisStrategy
É no meio-jogo que o amador desiste do xadrez. Ele tem tantas peças disponíveis, tantos lances possíveis, mas nada parece produtivo. Ofereço aqui um ponto de partida.

A angústia do meio-jogo

Todo amante de xadrez se frustra com a falta de ideias no meio-jogo. Isso ocorre em posições que parecem boas, após uma boa abertura ou até com vantagem material (por exemplo, de um peão, como no diagrama).

Pior ainda, você pode acabar refletindo vários planos possíveis. Quando se der conta que nenhum deles funciona, seu relógio já correu demais e você precisa escolher um lance mal pensado.

Vamos falar de um conceito bem simples para esse problema: o conceito de "melhorar a pior peça".

Identificando a peça "infeliz"

Graças ao recurso do Lichess chamado "aprenda com seus erros", eu pude aprender novos conceitos com a seguinte partida que joguei de pretas:

https://lichess.org/RqJovEBV/black#33

Na posição do diagrama, ambos acabaram de fazer o roque. A vantagem das pretas é grande, bem mais que o simples peão. Mas eu, de pretas, tive que pensar muito e não consegui aproveitar.

Eu queria meu bispo em h6, pois o primeiro passo, como já aprendi, é identificar qual peça eu gostaria de melhorar, ou simplesmente qual delas está "infeliz" por estar atuando sobre pouco espaço. O bispo de casa escura não está sequer desenvolvido, então essa foi fácil: já identifiquei a "pior peça".

Mas para onde ele vai? Qualquer boa casa (as marcadas em verde) resultam em troca de bispos e no recuo de um cavalo já bem posicionado. Embora me livre de uma peça ruim, isso não tem nenhuma cara de ser a melhor ideia.

Mesmo diagrama da primeira imagem.

A empatia de outra peça

A análise do Lichess me fez enxergar a melhor ideia. Quem vai ajudar minha "pior peça" é justamente a "segunda pior peça": o cavalo de c6.

Parecia uma peça feliz, mas não era. As casas que esse cavalo cobre já são todas controladas por peões meus. Ele está redundante e, por isso, totalmente livre pra fazer algo melhor.

Com a manobra de e7 para g6 (em verde), ele obriga o bispo vulnerável branco a sair de uma diagonal muito boa, e deixa essa diagonal de graça para o meu bispo (em vermelho) com ...Bh6.

Não é lento manobrar afetos

É justo reparar que esse plano parece longo demais "só" para melhorar uma peça, mas é justamente por isso que não mexemos nas peças que já estão "felizes" no controle sobre grandes espaços de interesse seu e do oponente. Dessa forma, ele não terá por onde reagir.

Manobrar com segurança faz parte do jogo. De fato, algumas posições muito meticulosas nos obrigam a buscar melhorias permanentes e que abrem portas para ação e dinamismo.

Isso não é lento se você está melhorando peças!

Não é feio manobrar afetos

Aos olhos mais espertos, nossa manobra de cavalo tem um defeito no final. As brancas podem responder a ...Cg6 com Tg1, cravando o cavalo, de forma que anula seu ataque sobre o bispo em f4.

Porém, como estamos trabalhando apenas com peças disponíveis, entra nesse caso outra manobra muito interessante: ...Bg7! simplesmente anulando a cravada. As brancas recuam o bispo e então ...Bh6 do mesmo jeito. Estranho e brilhante!

Fale a verdade: nem é todo dia que você vê um bispo manobrar na mesma diagonal, mas muitas aberturas teóricas fazem isso, e a diferença é que você decorou!

Pratique o conceito

Enfim, por mais importante que seja investir sua energia mental em alvos, debilidades, buracos na posição e até golpes táticos, tudo isso só faz sentido no plano maior de tornar suas peças mais ativas e assim mais felizes.

Portanto, se faltar ideia no meio-jogo, vale a sugestão: identifique logo sua pior peça, nem que seja para trocá-la por uma boa do oponente.

Se quiser desafio, também fiz um estudo interativo sobre esse conceito aqui no Lichess:

https://lichess.org/study/F1P1medS