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Hora do Torneio

Salomao Rovedo

Salomao Rovedo (1942) Diário do Rio de Janeiro

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Histórias do xadrez do Rio de Janeiro contadas como conversa de botequim. Papo entre amigos e admiradores do xadrez.

Fiquei impressionado! Conhecia-o como "bom" jogador de xadrez e já havia lido alguns de seus trabalhos. Mas, este mais recente (que espero seja o precursor de muitos outros), me deixou impressionado. Baixei-o e ao ler o comentário de Ivo Korytowski iniciei a leitura Li de uma tacada só. Uma reencarnação de Machado de Assis contemporâneo, no estilo que flui suavemente, entretendo o leitor desde a primeira frase, na verdadeira crônica dos tempos imorredouros deste Rio de Janeiro. Uma máquina do tempo preciosa. Uma obra de Mestre. Parabéns. Guilherme Ulrich von Calmbach (16/5/2018)

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Ao encerrar as atividades de xadrez em 2018 o CXG e o TTC realizaram o IRT de Natal, dirigido por Reynaldo Veloso e arbitrado pelo AF Rafael Jerdy. Além de fazer bem para os neurônios, foi ótimo rever mais uma vez muitos amigos de longa data, frequentadores assíduos do glorioso Cube de Xadrez Guanabara e outras agremiações. Estavam presentes NM Marcio Baeta, Wallace Machado, João Batista, FM Hilton Rios, NM Ângelo Bil, Paulo Fucs, Renato Carvalho, Alexandre Pacheco, aos quais se juntaram o MI uruguaio Luis Rodi – que já incorporou o espírito carioca e faturou o 1º lugar – Antônio Manzi (Presidente da FEXERJ), o FM Rangel Daniel (que em pouco tempo será MI), Claudio Oliveira, Carlos Henrique e Vinicius Motta, entre outros. Desejo a todos vocês Boas Festas e que no ano 2019 continuemos a nos enfrentar, peça a peça, lance a lance, casa a casa. (26/12/2018)

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Meu entusiasmo pelo xadrez está além da preparação técnica e física: após jogar o Torneio de Xadrez de Poços de Caldas 2019 estava tão cansado como um maratonista. O escore de 1,5 pts. (=3 -3) em 6 diz tudo. Ademais a garotada – de ambos os sexos – está chegando com força e entusiasmo característicos da juventude. Mas gostei da cidade: Poços de Caldas tem o sabor das cidades simples. Saí do Rio em pleno verão de 40 graus, para dormir de cobertor na serra mineira. Fui pela Viação Cometa e depois descobri que minha bagagem foi violada por um filho-da-puta, ladrão descarado, que roubou algumas coisas. O safado levou o sabonete Lifebuoy; o creme dental Kolynos; a brilhantina Glostora; camisinhas Vista-se; a fralda geriátrica Kialívio (ainda não uso, mas tenho por perto); a caneta Bic Cristal; balas Pipper hortelã; aparelho e lâminas de barbear Gilette; a calça Lee; o Leite de Rosas; “Tina, a maranhense”, folheto-romance de Carlos Zéfiro – e outras bobagens. (09/02/2019)

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Na volta de Poços de Caldas para o Rio tive a sorte de pegar carona com os mestres Milton Okamura e Márcio Baeta. Viajar com pessoas inteligentes e unidas pelo xadrez é mais que viagem: é uma “trip”. Só não deu para comprar o famoso doce de leite que prometi a meu neto nem o queijo da Serra da Canastra, muito anunciados na cidade. Nem mesmo nas paradas obrigatórias, agendadas pelas bexigas dos caronas, nenhuma loja com doce e queijo apareceu. A mais importante discussão foi sobre o sistema de cálculo de Rating usado pela FIDE, totalmente maluco: um certo valor K, fixado em K = 16 para GM e K = 32 para os demais jogadores. Por que não um valor K igual para todos? Ora, a política de Federações e Confederações é “olhar para o futuro”, pois é dali que virá o $$$$$$ que perpetua o sistema. Muitas regras do jogo de xadrez mudaram, mas é senso comum que a maioria mudou para pior, que é o alimento dos néscios. Mudança para melhor? Fica para a próxima vez. (12/02/2019)

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Amigos. Amizade. Em João Pessoa jogadores de xadrez dizem “não entender como um esquerdista possa homenagear Bobby Fischer, sabendo-se que ele era anticomunista ferrenho”. A diatribe era contra meu amigo Fernando Melo. Não me omiti, comentei no ato: “Bobby Fischer não era nada disso. Ele era contra o modo como os enxadristas eram maltratados pelo Regime Soviético. Por isso Fischer criou tanta quizília no match com Boris Spassky. Jogadores soviéticos respeitavam e adoravam Fischer. Foram unânimes em reconhecer que a atuação de Fischer deu mais dignidade ao jogador de xadrez”. Depois disso veio o silêncio convincente. Outro me interpelou para saber qual minha “política” com o GM Darcy Lima, Presidente da CBX, Vice-Presidente da Confederação de Xadrez para as Américas (CCA), Árbitro/Trainer da FIDE, posições conquistadas com capacidade, trabalho e honestidade. Conheci Darcy adolescente no CXG. Joguei ping com o pai de Darcy, pessoa alegre no jogar, mas duro (até demais) na educação do filho. A minha “politica” com Darcy Lima é, pois, a amizade familiar. Amigo não tem política, amigo é amigo. Ninguém fala mal de amigo meu. E ponto final. (07/04/2019)

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Estou saindo do Rio para participar do torneio de xadrez Copa Contaud 2019 em Cuiabá e também para visitar o mano Dr. Roberto Eloy e família. Já vi que a viagem será uma puta aventura. Saio do Rio-GIG dia 30/05 às 07h40m para conexão em Viracopos-VCP. Lá terei que esperar até 14h35m – ou seja, delay de 05h40m! – para seguir a Cuiabá-CGB. E a volta? Para completar a aventura, sairei de Cuiabá-CGB para Brasília-BSB, de Brasília para Viracopos, aonde espero chegar às 23h45m. Só então finalmente retornarei ao Rio, chegando às 00h50m, ou seja, já de madrugada. A companhia aérea? Azul. Porra, alguém pode me explicar por que tenho de sair às 07h40m para pegar conexão às 14h35m? Alguém pode me explicar por que tenho de ir de Brasília a Viracopos para chegar ao Rio? Não tem nenhum voo de Brasília pro Rio? E por que vão largar um velho de 77 anos às 00h50m no Galeão, cercado de favelas por todo lado? Será que a Azul é uma empresa de retardados? Ou será porque paulista gosta de perseguir carioca? Sou velho, mas não sou otário: Azul nunca mais! (28/05/2019)

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Acompanhada de um trainer com 1,90m de altura, ela corre 9km toda manhã, depois circula pelo salão com desenvoltura. Simpática, cabelos loiros, sorriso largo, ela ouve elogios e cumprimentos. Certa rodada – surpresa! – estamos emparceirados. A partida inicia suave e terna como as tardes quentes de Cuiabá. Na Abertura ganho um peão. Poucos lances depois o espanto toma conta de mim: Sem nenhuma emoção ela vai entregando todas as peças uma a uma. Entramos num final inusitado: eu tenho muitas peças, ela apenas o Rei defendido por meia dúzia de fieis escudeiros. O mate é iminente. Ouço a voz angelical: – Vou repetir os lances três vezes, chamo o árbitro e peço empate. Mais uma vez controlo o espanto. – Para isso acontecer, esclareço, também tenho que repetir os lances. Ela ouve, demonstra que entendeu, desiste de chamar o árbitro. Em seguida oferece empate. – Agora não dá mais, justifico a recusa (tenho mate em dois). No café do dia seguinte, ela se aproxima: – Você não aceitou empate – e confessa – faz só quatro meses que jogo xadrez. Respondo com o melhor sorriso. Coisas dos torneios... (05/06/2019)

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No salão de jogos falo com a senhora que tira muitas fotos. Pergunto onde serão postadas, mas ela é a mãe que está com dois filhos jogando. Comenta que acha bom eles participarem de torneios “para ganhar experiência”. É um ponto a ponderar. Muitas crianças jogam torneios de xadrez misturados a adultos. Não ganharão nada se o professor não ensinar, além de tática e rasteiras, ética e comportamento. São matérias que não constam dos cursos de xadrez espalhados por aí. Deveria. Seria bom criar torneios com crianças do mesmo grupo etário. Na última rodada sou emparceirado com um garoto. Antes de iniciar a partida ele comenta com o colega: “Se eu ganhar meu rating irá a 1600”. A partida começa. Joga rápido e na abertura fico inferior. Ataca feroz a minha ala do Rei. Falho na defesa, deixo Cavalo no ar, ele não vê. Recupero a posição, ganho Peão, cravo a Dama com a Torre, dou xeque para ganhar um Bispo. Ele abandona e me cumprimenta. Antes de sair digo que deixei o Cavalo no ar, ele se interessa, reproduzimos a partida, mostro como foi. Ele levará a partida para estudo e assim nós aprendemos alguma coisa. (07/06/2019)

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Estou jogando com um rapaz forte, alto, simpático, cabelos amarrados em rabo-de-cavalo. Jogamos de igual para igual até entrarmos em final de Cavalo contra Bispo. Peões iguais, Reis bloqueados. Ofereço empate, recusado e explicado. – Posso mostrar? – ele pergunta. – Claro – respondo democraticamente. Ele faz breve análise e aponta para um Peão meu e diz: – Você tem esse ponto débil, que vou atacar com meu Cavalo. – Mas o ponto não é tão débil assim, posso defender com o Bispo – replico. E mostro a ele como pode ser defendido. – Bom, ele insiste, se eu não ganhar o peão, vou ganhar aqui – aponta para o relógio – no tempo. Que fazer? Dá vontade de rir, mas o cara é forte. Resisto bravamente, mas no zeitnot falho e sou derrotado. Perco a partida sem perder o Peão que meu adversário ameaçou ganhar. Depois descubro que é um professor de xadrez da equipe que organiza o torneio. Não sei como ele entende e conversa com os alunos sobre esse diálogo com a partida em pleno andamento, absolutamente proibido. Essa é a matéria que os professores não ensinam aos alunos. E pelo visto não conhecem. Coisas do xadrez... (10/06/2019)

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O meu primeiro sonho americano de jogar o 12th NY International no Marshall Chess Club (23 West Tenth Street, Greenwich Village) foi por água abaixo. Acabo de voltar do Consulado dos USA com um peremptório NÃO. Meus amigos do Brazilian Day vão sentir minha falta! Vou entrar no PROCON contra os USA pedindo restituição das Taxas Consulares (aliás, altíssimas), merreca que economizei ao passar a metade do ano sem beber. Tem o dano moral também: quando terei outra chance de estar no mesmo clube que Capablanca e Alekhine jogaram? E pelo visto jamais realizarei meu segundo sonho americano: mijar naquele lindo gramado que cerca a Casa Branca e mostrar o dedão para o Trump. Que bosta! (19/06/2019)

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Murillo. Recebi o comunicado de falecimento do Mestre Nacional de Xadrez Jose Cristovam Sauaia Kubrusly aos 61 anos de idade no dia 02/12. Cristovam fazia parte da Diretoria do Clube de Xadrez Guanabara, onde por várias vezes exerceu mandato de Presidente. Eu e ele fomos muito amigos. Muito querido no Clube e no ambiente enxadrístico, além de altamente culto, Cristovam deixa uma lacuna irreparável, não somente para o CXG, mas para o xadrez carioca em geral. Lembra dele? O Joaquim Itapary me contou que foi aluno do pai dele, “professor Edson Kubrusly, casado com uma linda filha dos Sauaia, de Rosário. Ele foi dentista, oficial do Exército e professor de Química e de Ciências Naturais. Gente finíssima” – disse-me Quicas. Você me contou que as famílias Sauaia e Kubrusly entraram em desavença tendo morte como desfecho. Mesmo assim não teve jeito de evitar o casamento dos namorados. Parece conto de fadas, mas não é. É tragédia pura. Agora, décadas depois, o filho se suicida atirando-se do 6º andar do prédio onde morava em Botafogo. Dizem que a causa foi depressão. Que história, né?

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“Clube de Xadrez Guanabara – Nota de Falecimento – Comunicamos o falecimento do Mestre Nacional de Xadrez José Cristovam Sauaia Kubrusly, aos 61 anos de idade, ocorrido no último dia 02/12. Cristovam fazia parte da Diretoria do Clube de Xadrez Guanabara, onde por várias vezes exerceu mandato de Presidente. Muito querido no clube e no ambiente enxadrístico, além de altamente culto, Cristovam deixa uma lacuna irreparável, não somente para o CXG, mas para o xadrez carioca em geral. Nossas condolências aos familiares e amigos”. Quincas, lembra dele? Filho de um professor teu, nos encontramos aqui no Rio num café da Rua Acre. Ele me chamou e te apresentei a ele para breve papo. Fomos grandes amigos no CXG. Faleceu novo ainda, né? (Resposta): Primo. Filho de Edson Kubrusly, casado com uma linda filha dos Sauaia, de Rosário. Ele foi dentista, oficial do Exército e professor de Química e de Ciências Naturais. Gente finíssima. Sorry